"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os seus olhos que são doces.

Porque nada te poderei dar se não a mágoa de me ver eternamente triste.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida .

E eu sinto que em teu gesto existe o meu gesto, e em tua voz existe a minha voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero que surjas em mim como a fé nos desesperados.

Para que eu possa levar uma gota de felicidade nesta terra amaldiçoada.

Que ficou na minha carne como uma nódoa do passado.

Eu deixarei, tu irás, e encostarás sua face em outra face.

Mas sempre saberá que quem te colheu fui eu.

Porque encostei minha face na face da noite, e ouvi sua fala amorosa.

Porque meu corpo ainda sente o teu toque.

Minha boca ainda sente seu beijo.

E você ainda sente meu cheiro.

Eu ainda ouço sua voz.

E a vida trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só, como os veleiros nos portos silenciosos.

A sua espera, até que decida navegar por mundos distantes.

E eu te possuirei mais que ninguém, porque eu poderei partir.

E ainda assim todas as lamentações do mar , das estrelas, e da terra, serão sua voz ausente.


Ausência - Vinicius de Morais / adaptação de Fernanda Villela