Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de enxugar para não saberes que havias caído.
No dia seguinte , estavas imóvel, na tua forma definida, modelada pela noite, pelas estrelas e por minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho.
Vi aquele dia se levantar inutilmente.
Inclinei-me sobre teu rosto, absoluto como um espelho, refletindo minha alma.
E eu tristemente te procurava...
Mas isso também foi inútil , como tudo mais que veio depois.
Neste mês as cigarras cantam, e os trovões caminham por cima da terra.
Agarrados ao sol, assim como me agarro a minha esperança de te ver novamente, um dia.
Neste mês ao cair da tarde a chuva corre fina, por cima das montanhas.
E depois a noite é tão clara.
Mas tudo é inútil , porque teus ouvidos estão como conchas vazias, e seus olhos não podem mas me ver.
Neste mês , abrem-se cravos , há um perfume profundo.
E as areias queimam brancas e secas.
Junto ao mar , de cada fronte desce uma lagrima de suor.
Mas tudo que vejo é inútil , e os teus olhos não buscam mas os meus .
E nem os lugares que eu gostava.
Minha tristeza é não poder mostrar –te as nuvens brancas.
E nem as flores novas , ou o aroma em forma de brisa.
Gostaria de sentir seu corpo , e teu coração feliz.
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo o caminho dos trens , e o brilho de cada estrela .
Tomaria o luar em suas mãos , e nesse luar, eu banharia minha vida.
E então aquela estrela maior , que a noite levava na mão direita , e um sorriso, de uma alegria , que eu não tenho , pois um dia eu te dei.
Cecília Meireles com adaptação de Fernanda Villela